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É dia de feira. Durante o dia, donas de casa se espremem debaixo de toldos azuis e laranjas em busca do melhor preço na hora de abastecer a geladeira de casa. No final da tarde, os gritos cessam, os feirantes recolhem aquilo que sobrou de suas barracas e outros brasileiros iniciam uma feira mais silenciosa, movida pelo desperdício dos alimentos.
"É uma questão cultural, acontece desde a plantação até a comercialização", afirma Sabetai Calderoni, Diretor do Instituto Brasil Ambiente.
Maria Clara da Conceição é dona de casa e mora com a família em um conjunto habitacional na zona oeste da capital paulista. Aos 71 anos, ela freqüenta toda semana a Companhia de Abastecimento de São Paulo. É de lá, mais precisamente do lixo, que vem a comida que vai à mesa de dona Maria. "É sofrido, mas aqui eu encontro o que dar de comer para os meus netos de uma forma honesta, sem fazer com que eles tenham que pedir dinheiro no farol", diz.
Segundo estimativas, de toda a quantidade desperdiçada (que chega a somar toneladas diárias), calcula-se que metade ainda tinha condições de ser consumida ou comercializada. Shirley da Penha é outra brasileira que sobrevive às custas do que os outros consideram como lixo.
"É melhor a pessoa pegar do chão ou pedir ao dono da barraca, do que ser apontada por aí como bandida e que roubou frutas da banca. É viver honestamente."
Para evitar as cenas de desperdício, a CEAGESP um programa de combate, no qual distribui os alimentos não aproveitados para um centro de triagem, responsável pela sua distribuição para entidades como creches, albergues e abrigos. "Normalmente vem produtos em condição de consumo e vamos doá-lo para entidades", afirma João Tadeu Pereira, Coordenador de Programas Institucionais CEAGESP. Eis uma dura e triste realidade brasileira, o que é tido como lixo para alguns é a sobrevivência de outros.
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